
O Rio de Janeiro é um cenário maravilhoso para uma cidade. Diante de tantas belezas naturais, o homem se digladia fazendo com que o ambiente vire a era do fim dos dinossauros, no entanto, de pessoas racionais, pelo menos teoricamente.
Com notáveis expoentes musicais, o Rio de Janeiro é conhecido por todo o mundo principalmente pelo samba. E o samba mais uma vez vem aqui, através deste artigo, mostrar como nem sempre a música foge à realidade, mas muito pelo contrário, é tão sensível que é capaz de enxergar mais do que qualquer um de nós.
Numa cidade muito longe daqui o momento é de caos. A população “tá” bolada, muito bolada... Essa música, composta pelo Marcelo D2 e Leandro Sapucahy, é, sem dúvida, um belo momento para refletirmos sobre a violência e até onde iremos chegar.
Para quem não conhece a letra, eu vou destrinchá-la ao longo do texto. No entanto, antes de começar, é bom a gente fazer referência e dizer que Marcelo D2, assim como Gabriel, O Pensador, sempre foram considerados músicos de uma inteligência brilhante, fora do normal, portanto, o senso crítico é altamente apurado, chegando, às vezes, a ofender pelo radicalismo que ele apresenta.
Numa cidade longe daqui - diz a música, tem favela que parece com as favelas daqui; tem problemas que parecem com os problemas daqui – que ironia. Não será que a mesma cidade? A letra continua dizendo que há homens maus e homens bons e que existem homens da lei com determinação, mas o momento é de caos porque a população não sabe ao certo quem é; quem é herói ou vilão.
Ninguém sabe, neste trecho da música, se a milícia é polícia; Se a polícia faz bem; Se o traficante é benéfico ou maléfico. Ninguém sabe, portanto, diz a letra, quem vai e quem vem na contramão.
A letra, com total genialidade dos compositores explica: Tem homem mal que vira homem bom; Tem homem da lei que vira homem mal; Esses homens vêm com uma missão e fazem outra. Ao invés de salvar, sai matando geral. Quando vem para atirar, quando ele “caga no pau”.
E aí, aí a chapa esquenta. Por que?! Porque o xis do problema está na corrupção. Tanto lá como cá não tem acerto o pedido, errou não tem perdão. Quem fala muito é x-9 e desses a gente tem de montão. O coro comeu, polícia e bandido bateram de frente, e aí foi “chapa quente”.
A letra diz: Bateu de frente um bandido e o sub-tenente lá do batalhão; foi tiro de lá de cá; balas perdidas no ar; até que o “silêncio gritou”; dois corpos no chão que azar; feridos na mesma ambulância uma dor de matar; mesmo mantendo a distância não deu pra calar.
E aí, o Rio de Janeiro continua sendo descrito. A letra diz que polícia e bandido trocaram farpas, farpas que pareciam balas, e nisto, houve um diálogo entre polícia e bandido. Reparem bem nesse trecho; O bandido falou: Você levou tanto dinheiro meu; e agora vem querendo me prender; eu te avisei você não se escondeu; deu no que deu e a gente ta aqui; pedindo a Deus pro grupo resistir; será que ele está a fim de ouvir? Vocês têm tanta bazuca, pistola, fuzil e granada, me diz pra que “tu” tem tanta munição?
E aí respondem: É que além de vocês, nós ainda enfrenta um outro comando, outra facção que só tem alemão saguinário(políticos, lógico), um bando de otário, marrento querendo mandar. Por isso que eu tou bolado sim, eu também tou bolado sim. E aí, ele completa: É que o Judiciário “tá” todo comprado e o legislativo “tá” financiado e o pobre operário que joga seu voto no lixo, não sei se por raiva ou só por capricho. Coloca a culpa de tudo nos homens do camburão, eles colocam a culpa de tudo na população.
E agora, pra finalizar, eles dizem assim: {E o bandido...} E se eu morrer vem outro em meu lugar {Polícia...} E se eu morrer vão me condecorar; E se eu morrer será que vão chorar; E se eu morrer será que vão lembrar; E se eu morrer... {já era}; E se eu morrer; E se eu morrer... {foi!}; E se eu morrer
Chega de ser subjugado; Subtraído; um sub-bandido de um Sublugar; subtenente de um Subpaís; um subinfeliz; subinfeliz..
E aí, ironicamente, uma letra dessas, musicado com um belo ritmo de samba nunca foi ao ar. Nunca vi rodar numa FM; Nunca vi aparecer nos programas de televisão; Nunca vi passar na TV Senado; TV Câmara; TV Assembléia.
Será nossa realidade tão cruel que a censura volta no sentido de não mostrar o que realmente ocorre? Será que estão nos furtando, delicadamente, nosso direito sublime de ter acesso a arte, a música, a realidade dura e cruel conquistada depois de anos e anos de lutas, mortes, torturas e decepções?
Ou será que é realmente melhor para nós vivermos como eles, políticos, no “Fantástico Mundo de Bob”, e então, viver a vida e fingir que fomos felizes vendo todo dia a desgraça alheia?
Será? Será? Refletir nunca é demais. Mas não reflita sob a censura e o véu da ignorância que querem nos impor. Reflitamos sob a óptica crítica, dura, sincera, que é a realidade que nos cerca. Porque, no fundo, a cidade não é longe daqui... A cidade é, realmente, indubitavelmente, AQUI! Infelizmente!
E, então, diante de tantas exposições, radicalismos e versos proferidos, você há de convir que a arte com sua sensibilidade andam de mãos dadas com a realidade nua e crua. Há alguém que conteste?